Saúde

Canetas emagrecedoras em crianças: quando podem ser usadas e quais os limites

Endocrinologista pediátrico do Hospital Santa Joana Recife explica autorizações da Anvisa e alerta que medicamento não substitui mudança de hábitos

Equipe Corrivus
Publicado em 02/06/2026, às 22h29

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Resumo da matéria

No Dia da Conscientização contra a Obesidade Infantil, celebrado em 3 de junho, o endocrinologista pediátrico Thiago Arruda, do Hospital Santa Joana Recife, Rede Américas, explica as condições de uso das chamadas canetas emagrecedoras em pacientes pediátricos. De acordo com o especialista, a tirzepatida (Mounjaro) foi liberada para crianças acima de 10 anos, mas apenas para diabetes tipo 2. A semaglutida tem autorização para obesidade em adolescentes acima de 12 anos. Em ambos os casos, o uso exige indicação e acompanhamento médico, e a mudança de estilo de vida permanece como primeira linha de tratamento.

Canetas emagrecedoras em crianças: quando podem ser usadas e quais os limites

Uso de medicamentos injetáveis para perda de peso em crianças e adolescentes exige indicação médica e não substitui mudança de hábitos alimentares e prática de atividade física Crédito: Ilustração

Com a obesidade infantil em alta e as chamadas canetas emagrecedoras cada vez mais populares, cresce a pergunta entre pais e responsáveis: esses medicamentos podem ser usados em crianças? A resposta é sim — mas com restrições importantes e apenas sob indicação e acompanhamento médico. O endocrinologista pediátrico Dr. Thiago Arruda, do Hospital Santa Joana Recife, Rede Américas, explica o que está autorizado e o que ainda não pode ser feito na pediatria.

A tirzepatida, comercializada como Mounjaro, foi liberada recentemente para crianças acima de 10 anos, mas com uma restrição importante. 'Apesar de a gente saber que a tirzepatida ajuda muito na perda de peso e está sendo muito usada com esse benefício, a indicação e a liberação do Ministério da Saúde foram apenas para crianças acima de 10 anos com diabetes tipo 2', explica o médico.

Já a semaglutida tem autorização mais ampla para esse público. 'A semaglutida é liberada, sim, para obesidade em crianças e adolescentes acima dos 12 anos, com uma margem de segurança muito boa', afirma Thiago Arruda.

Os dois medicamentos foram desenvolvidos originalmente para o tratamento do diabetes tipo 2 e passaram a ser utilizados também no combate à obesidade. Apesar dos benefícios na redução do peso e na melhora metabólica, o especialista lembra que efeitos colaterais existem. 'Por ser uma medicação, como qualquer outra, ela tem riscos naturais, como alergia, hipersensibilidade e problemas no local da aplicação. Além disso, esse grupo de medicamentos costuma causar sintomas gastrointestinais. A criança pode ter enjoo, vômito, diarreia ou constipação. Ela mexe bastante nessa parte digestiva', alerta.

Ainda assim, o médico pondera que o balanço entre riscos e benefícios tende a ser favorável em casos com indicação correta. 'O risco-benefício costuma ser positivo, porque a perda de peso ajuda a diminuir a glicose, reduz o risco de pressão alta nessa idade e também o risco de doenças cardiovasculares na vida adulta. Então, em muitos casos, quando há indicação e acompanhamento médico, vale, sim, o uso', pontua.

O debate sobre as canetas cresce num cenário de avanço da obesidade infantil. Dados da World Obesity Federation indicam que, em 2020, cerca de 158 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos viviam com excesso de peso — número que pode chegar a 254 milhões até 2030. No Brasil, o SISVAN apontou, em 2025, que 31% das crianças de 5 a 10 anos acompanhadas apresentaram sobrepeso, 9,7% foram classificadas com obesidade e 6% com obesidade grave. Entre os adolescentes, os índices foram de 35,4% com sobrepeso, 11,8% com obesidade e 3,5% com obesidade grave.

A obesidade é classificada pela OMS como doença multifatorial, com causas genéticas, metabólicas, comportamentais, ambientais e sociais. Por isso, o tratamento também precisa ser amplo. 'A obesidade precisa ser considerada e levada como uma doença crônica. O tratamento precisa ser completo, envolvendo médicos, pais, crianças e mudança de comportamento. O medicamento sozinho não faz milagre', diz Arruda.

O Ministério da Saúde indica que alimentação saudável e atividade física são o caminho mais seguro para tratar a obesidade infantil, com outras intervenções — como apoio à saúde mental e uso medicamentoso — quando necessário. O especialista reforça essa hierarquia. 'Uma coisa muito importante é que a mudança no estilo de vida continua sendo a primeira opção de tratamento sempre. O medicamento está ali para ajudar, mas, na pediatria, ele não vai ser a primeira opção', afirma. 'A gente precisa mudar o estilo de vida dessa criança. Ela precisa se alimentar melhor, praticar exercício físico e contar com o apoio da família. A medicação entra como um tratamento adjuvante quando, mesmo com essas mudanças, não se consegue obter a perda de peso', complementa.

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