Thiago Arruda explica como amamentação reduz risco de diabetes
Endocrinologista do Hospital Santa Joana Recife explica como o leite materno programa o metabolismo do bebê e reduz o risco de doenças crônicas na vida adulta
Resumo da matéria
Neste Agosto Dourado e na Semana Mundial do Aleitamento Materno 2026, entre 1º e 7 de agosto, especialistas destacam que os benefícios do leite materno vão além da nutrição do bebê e influenciam o metabolismo por toda a vida. Segundo o endocrinologista pediátrico Thiago Arruda, do Hospital Santa Joana Recife, da Rede Américas, o conceito de Programação Metabólica (DOHaD) explica como estímulos nutricionais desde a gestação até os primeiros anos de vida reduzem o risco de diabetes, hipertensão e colesterol alto na vida adulta. O médico reforça a recomendação de aleitamento exclusivo até os seis meses e de manutenção do leite materno, junto à alimentação complementar, até pelo menos os dois anos de idade, além de citar benefícios da amamentação também para a saúde da mãe.
Crédito: Magnific
O que um bebê come nos primeiros mil dias de vida pode influenciar diretamente as chances de ele desenvolver diabetes, pressão alta ou colesterol alterado quando for adulto. É o que mostra o conceito de Programação Metabólica, destacado neste Agosto Dourado e na Semana Mundial do Aleitamento Materno 2026, que acontece entre 1º e 7 de agosto.
Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o Ministério da Saúde (MS) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), o leite materno reúne todos os nutrientes necessários para o crescimento e o desenvolvimento do bebê nos primeiros meses de vida. Mas seus efeitos vão além dessa fase: a amamentação também influencia o metabolismo da criança e ajuda a reduzir o risco de doenças crônicas na vida adulta.
Esse fenômeno é chamado de Programação Metabólica, ou DOHaD (Developmental Origins of Health and Disease): estímulos nutricionais e ambientais vividos desde a gestação até os primeiros anos de vida têm efeitos duradouros sobre a expressão gênica, o metabolismo e o risco de doenças crônicas na idade adulta. O leite materno entra nesse processo ao oferecer nutrientes, hormônios, anticorpos e fatores de crescimento na medida certa para cada fase do desenvolvimento infantil.
Para o endocrinologista pediátrico Thiago Arruda, do Hospital Santa Joana Recife, da Rede Américas, as escolhas alimentares feitas logo no início da vida podem gerar reflexos que acompanham a pessoa por décadas. 'A ciência já mostra que a nossa alimentação nos primeiros meses de vida programa o nosso metabolismo para o resto da vida. A alimentação saudável e, nesse caso, o leite materno, que é o alimento mais saudável para a criança, programa todo o metabolismo para que ela tenha menos chance de desenvolver doenças como diabetes, pressão alta e alterações do colesterol', explica Thiago Arruda.
Segundo o médico do Hospital Santa Joana Recife, a programação metabólica começa ainda antes do nascimento: os primeiros mil dias de vida, período que vai da gestação até os dois anos de idade, são fundamentais tanto para a formação do metabolismo quanto para o desenvolvimento do organismo como um todo. 'Nosso metabolismo começa a ser pré-programado desde a fecundação. Fatores que acontecem com a mãe durante a gravidez já influenciam como será o metabolismo da criança nos próximos anos', destaca Thiago Arruda.
Entre os fatores que precisam ser observados pela gestante estão a prática regular de atividades físicas, a alimentação equilibrada, o controle do peso, níveis adequados de glicose para prevenir a diabetes gestacional, a qualidade do sono, a ausência do consumo de álcool e tabagismo, além do controle dos níveis de estresse. 'Tudo o que ocorre nessa faixa etária pré-programa essa criança para o metabolismo durante toda a vida. A alimentação correta, com proteínas, gorduras e carboidratos nas quantidades adequadas, faz com que o organismo desenvolva um melhor equilíbrio metabólico', reforça o especialista.
A recomendação da SBP, do MS e da OMS é que o bebê receba exclusivamente leite materno até completar seis meses de vida. 'O aleitamento materno até os seis meses de idade é suficiente para o desenvolvimento da criança. Isso significa que ela não precisa de nenhum outro alimento, nem mesmo água, apenas do leite materno', recomenda Thiago Arruda. Quando não é possível manter o aleitamento exclusivo por indicação médica ou outras circunstâncias, o especialista do Hospital Santa Joana Recife explica que existem alternativas seguras: fórmulas infantis específicas para cada faixa etária, produzidas a partir do leite de vaca e formuladas para se assemelhar ao máximo ao leite materno.
A partir do sexto mês, o leite materno continua importante, mas novos alimentos já podem ser introduzidos. 'Depois dos seis meses de idade, entra a alimentação complementar. Além do leite materno, passam a ser oferecidos alimentos sólidos e pastosos, sempre os mais saudáveis possíveis. Essa combinação deve ser mantida até, pelo menos, os dois anos de idade', orienta o endocrinologista. Segundo ele, esse cuidado contribui para a formação de adultos mais saudáveis: 'Crianças que recebem uma alimentação saudável nos primeiros anos de vida tendem a apresentar um metabolismo mais equilibrado e uma melhor homeostase, que é a capacidade que o organismo tem de manter seu equilíbrio interno, mesmo quando há mudanças no ambiente externo ou dentro do próprio corpo. Isso faz com que crianças saudáveis tenham maiores chances de se tornarem adultos saudáveis', afirma.
O leite materno também é conhecido como a 'primeira vacina do bebê', expressão que se refere principalmente ao colostro, o primeiro leite produzido após o parto, rico em anticorpos e fatores imunológicos que ajudam a proteger contra infecções. Além de reduzir o risco de alergias e de doenças crônicas e favorecer o desenvolvimento neurológico, a amamentação também traz benefícios para a saúde da mãe, como a redução de sangramentos após o parto, ao ajudar o útero a retornar ao tamanho normal, a diminuição do risco de câncer de mama e de ovário, a redução do risco de diabetes tipo 2 e de doenças cardiovasculares, especialmente após períodos prolongados de amamentação, além do fortalecimento do vínculo com o bebê e do bem-estar emocional.