Selic a 12% em 2026 agrada mercado, mas sufoca pequenas empresas
Com 8,5 milhões de pequenos negócios inadimplentes e dívidas acima de R$ 213 bilhões, especialista da UniCesumar explica por que a queda dos juros não chega ao caixa do empreendedor
Resumo da matéria
Enquanto o mercado financeiro comemora a perspectiva de uma Selic a 12% ao ano em 2026 como sinal de controle inflacionário, donos de micro e pequenas empresas seguem enfrentando crédito caro e dificuldades de fluxo de caixa. O Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian registrou 8,9 milhões de empresas inadimplentes no fechamento de 2025, com 8,5 milhões delas sendo micro e pequenos negócios, que juntos acumulam dívidas superiores a R$ 213 bilhões. Laís Requena, professora de Economia da EAD UniCesumar, explica a divergência e aponta caminhos estruturais para baratear o crédito na base da pirâmide empresarial.
Para o sistema financeiro, grandes empresas e o setor de construção civil, a perspectiva de queda da taxa básica de juros representa previsibilidade e custo menor de captação. 'Os primeiros beneficiados pela redução da Selic são o próprio sistema financeiro, que passa a captar recursos com custo menor, além do setor de construção civil e das grandes empresas com dívidas atreladas à taxa. O mercado interpreta isso como prudência no combate à inflação, o que estimula a economia sem gerar solavancos', analisa Laís Requena, professora de Economia da EAD UniCesumar.
O problema é que esse alívio não chega ao caixa dos pequenos negócios. A Selic baliza a economia, mas o custo final do empréstimo para o empreendedor é determinado pela margem financeira dos bancos, que embute despesas administrativas, lucro e expectativa de inadimplência. Como micro e pequenas empresas oferecem menos garantias e apresentam maior risco de calote, as instituições financeiras mantêm as taxas elevadas mesmo quando a taxa básica recua. 'Na prática, a operação do pequeno negócio fica comprometida já que o capital de giro continua caro, a reposição de estoque é dificultada e a expansão é adiada. Sem acesso a linhas viáveis, muitos empreendedores cortam custos para equilibrar as contas ou recorrem a alternativas agressivas, como cheque especial ou crédito rotativo, o que agrava a saúde financeira do negócio', explica Requena.
A dificuldade vai além do risco de inadimplência. A forte concentração bancária, que reduz a concorrência, o alto custo para os bancos avaliarem operações de valores menores, a exigência de garantias imobiliárias e a burocracia mantêm o crédito caro para a base da pirâmide empresarial — independentemente do patamar da Selic.
Para Requena, a solução passa por mudanças estruturais que vão além da política monetária. 'O país precisa ir além da política monetária e aprimorar iniciativas já existentes, como o PRONAMPE e as linhas do BNDES. O barateamento real do crédito depende de fatores como o aumento da concorrência bancária por meio da entrada de novos players digitais e a consolidação do Open Finance para o compartilhamento de dados de avaliação de risco. A utilização de inteligência artificial em sistemas de pontuação de crédito adaptados a pequenos negócios e a criação de garantias mobiliárias mais eficientes ajudariam a reduzir o risco jurídico e financeiro da operação', conclui a professora da UniCesumar.